domingo, 7 de junho de 2009

Carinhagens...

por Tahiane

Eu tenho boas lembranças dos domingos de minha vida, os almoços em família na casa da minha avó paterna, a melhor cozinheira que eu já conheci. Todos os netos reunidos, fazendo barulho, implicando, reclamando e depois rindo, rindo, rindo, rindo... A mesa de 8 lugares comportando 10 pessoas que se acotovelam para ver qual prato maravilhoso vovó fez dessa vez. Os mais velhos falando do futuro e do passado com uma desenvoltura que maravilha as crianças de uma forma inacreditável e nós, ansiosos pelo passado de histórias que não tínhamos, escutávamos com atenção. Nada de pegar o prato e ir para a frente da televisão, “lugar de comer é na mesa” e a minha avó nunca abre mão da companhia de todos.

Depois que todos terminam de comer é trazida a sobremesa, vovó serve todos, colocando quantidades colossais da gostosura da vez para cada um. Parece-me que as pessoas velhas sentem uma necessidade de alimentar os mais novos de forma que eles tirem da cabeça as idéias de magreza impostas pela modernidade. E todos nós sempre tiramos; nos despimos de toda repressão e comemos até não agüentarmos mais.

Como depois da tempestade vem a calmaria, as tardes de domingo são recheadas de sonecas, todos dormem. Eu, no entanto, nunca tive o hábito de dormir à tarde, o que me faz ser a única expectadora do silêncio da casa. Andar descalça sentindo o chão frio e, depois de me certificar de que todos estão dormindo, deitar no chão de olhos fechados, ouvindo Bob Dylan cantar “Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me, I'm not sleepy and there is no place I'm going to”. É como se eu não estivesse nesse lugar, estivesse em toda parte, é como se eu estive tão segura que nada me faria mal, que nada me machucaria. Eu sempre penso a mesma coisa todo domingo, não importa onde eu esteja, eu penso na casa da minha avó.

A casa da minha avó é o meu porto seguro, é onde eu irremediavelmente já criei raízes invisíveis, psicológicas talvez... Meu quarto está lá entocado me esperando, e todas as coisas que eu não me lembro mais, meus livros, algumas roupas, alguns projetos inacabados de pintura, meus desenhos, pastas pipadas de cifras para violão e milhares de frascos de cosméticos que eu não uso mais. Quando eu chego lá estão todas as coisas, no mesmo lugar, mas cuidadosamente limpas. Eu estou em casa.

Milhares de ações de todas as minhas idades continuam acontecendo em outra dimensão naquela casa. Lá eu ainda sou a garotinha curiosa que mexe em todas as gavetas em busca de alguma novidade, algum grampo de cabelo antigo, alguma roupa do avô morto, alguma jóia brilhante da avó... É pra lá que eu volto quando alguma coisa dá terrivelmente errado na minha vida, quando eu fico doente, ou simplesmente quando a saudade aperta tanto que meu coração fica pequeno demais pra existir e a única coisa que pode resolver é algum tempo em Caicó, na casa da minha avó.

A saudade que eu sinto da minha tia, da minha avó, do meu pai, daquela casa que me causa um fascínio tão grande é indescritível. Parece que ela tem vida, parece que naquele mesmo jardim onde Dida, a minha tia mais minha, tirou tantas fotografias, ainda se fotografam crianças invisíveis, vestidas de índios, ou com fantasias carnavalescas. As fotografias ainda são tiradas com a mesma câmera de 20 anos atrás, uma analógica profissional que Dida guarda com tanto carinho... São tantas lembranças, são tantas saudades, são tantas histórias... Hoje, enquanto eu almoçava sozinha ouvindo Mr. Tambourine Man, eu me dei conta de que eu tenho um porto seguro. Mas, pensando bem, a casa é só o cenário... Quando eu chego, coloco as malas no chão e sou recebida com um gigantesco sorriso enquanto Dida diz “minha moça chegou, graças a Deus”, eu sei. Eu sei que as mulheres que me chamam de "minha moça" e "princesa" até hoje são o que me prende ao chão. São elas que me fazem ter certeza. Sem elas eu sou linear, sem chão, sem lugar. Enquanto elas estiverem ali, eu estarei de volta.

5 comentários:

Dalva disse...

Que bunitu! Me emocionei. Queria ter uma casa da vovó!
beijos

Icaro disse...

sim, deu vontade de ser neto da sua avó. =D

Moacy Cirne disse...

Puxa, em primeiro lugar gostei do neologismo: 'carinhagem'. Tem mil conotações, não?, e todas bastante carinhosas. Depois, gostei do texto em si, com certo toque de gostosura...

Um abraço.

WART disse...

Se eu tivesse lágrimas sóbrio, eu choraria. Bunitim por dimais! ^^

Anônimo disse...

deu vontade de voltar à infância e sentir o chão gelado nas costas novamente.
o meu lugrazinho parecdio com o seu foi destruído já, era o sítio da minha família. =/
uma pena, qdo li seu texto deu vontade de chorar só de lembrar...

andréia

layout por WART :]