Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

2010 e a Consciência

por WART
Ano novo, vida nova... ou então a mesma coisa de antes; tempo de mudar, ou de ficar do mesmo jeito (ah, como eu gosto da simplicidade das dualidades). Você escolhe o que é melhor pra você, nem preciso dizer isso. Hoje, todo mundo sabe (ou pensa saber) dos seus direitos e da dita indelebilidade dos mesmos.

Eu estava pensando em escrever um texto longo e chato sobre isso, mas, ainda bem, eis que me deparo com uma pérola que diz exatamente o que penso sobre essas coisas. Vai aqui, na íntegra, como está no site original:

FUME!

Foto "chupada" do Blog do Guilhon.

Existe na vida de cada cidadão (se vosmicê não sabia), uma prerrogativa chamada livre-arbítrio, a qual dá o direito a qualquer semovente humano na face da terra, de fazer o que lhe der nas ventas. É aquele mesmo que Raul Seixas falava em Sociedade Alternativa, "faça o que tu queres, pois é tudo da lei", lembra?

Pois foi montado nesse argumento que Jojó Carvalho, fumante velho inveterado, foi querer subverter a ordem anti-fumacista da residência de seu colega Gaudêncio dos Anjos. A estória começou assim: Jojó, se queixando de dificuldades bilau-levantativas e falta-de-ar crônica, além de dor aguda na cacunda, lá dele; recebeu do médico o seguinte diagnóstico -"Pulmão avariado e trincamento varizístico entre o fiofó e a base dos ovos. Descompassamento cardíado e pólipos neuro-cebáceos no terminal do tubo digestivo".

Daí, a mulher do dito cujo, que, por causa destas mazelas, já vinha brindando-o com chifres e mais chifres - no varejo e no atacado -, resolveu abandonar o corno velho de vez.

Ele, então, pediu asilo na casa de Gaudêncio e foi logo pregando: "Não venha reclamar do meu fumo pois, o tabagismo é a mais inocentes das atividades sócio-recreativas humanas". E disse mais: "Eu tô respaldado no meu livre-arbítrio, coisa que permite a qualquer cidadão rasgar dinheiro, ser corno manso, votar em político corrupto, nadar no rio Tietê, queimar o anel e etc, se assim lhe aprouver"! Disse tudo isso, tossiu e caiu duro pra trás, finou-se, mor-reu-eu-eu-eu! Dona Fideralina, esposa de Gaudêncio, olhou o defunto e asseverou: "Livre-arbítrio é? O povo se apega a cada besteira!".

Pronto, aí está. De onde tirei isso? Do blog desse menino:


E esse é o link da postagem original: Blog do Falcão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Revoluções cotidianas - Freeganismo

por Tahiane


Freegans coletando alimentos

Você comeria algum alimento retirado de uma lixeira? Pois é exatamente isso o que os freegans (junção das palavras free + vegan) fazem, eles coletam alimentos encontrados no lixo, que ainda estão em bom estado, e podem ser consumidos. Para algumas pessoas comer lixo é uma idéia impensada e nojenta, mas existem freegans que nunca entram em supermercados, sobrevivem apenas dos alimentos que são jogados fora. E é muito! Segundo o instituto Akatu de consumo consciente cerca de 1/3 dos alimentos que vão para a mesa do brasileiro acabam no lixo, além disso, existe uma lei que proíbe que restaurantes e supermercados doem a comida que sobra. Todos os dias toneladas de comida de restaurante são jogadas no lixo no Brasil.

Um dos ativistas mundiais do movimento freegan é Adam Weiss um americano de 31 anos que vive em um escritório abandonado no Brooklyn, Nova York. Adam escreveu um manual,que ele chamou de “Revoluções cotidianas, práticas e instruções para viver além do capitalismo na vida cotidiana”. Segundo o autor “Nós devemos mostrar que nossas vidas não dependem em jogar ‘pelas regras’ como trabalhadores e consumidores obedientes e passivos, e para isso devemos demonstrar novas e melhores formas de sobreviver e prosperar.”

Mesmo que você não tenha interesse nenhum em comer lixo ou deixar seu carro na garagem, baixe o livro, ele dá dicas muito legais para diminuir o consumo e o desperdício. São só 14 páginas, da pra ler rapidinho, vale a pena sacar. E se você acha que isso de sustentabilidade é lorota, espera alguns anos tah?

Para saber mais indico aqui duas excelentes matérias sobre o assunto, que podem ser encontradas no portal Planeta Sustentável:

Sobre Adam Weiss e as Trashtours leia: Manhattan: o paraíso do lixo, da Tania Menai.

Freeganismo no Brasil, leia: Existe Almoço grátis. Mas é um lixo, da Bianca Nunes.


Para baixar o manual escrito por Adam, Clique aqui

sábado, 17 de outubro de 2009

Exército Brasileiro... é obrigatório!

por Popeye

sábado, 15 de agosto de 2009

51 - Uma péssima idéia

por Tahiane
Essa semana teve jogo do América. Após a minha aula, eu peguei um ônibus da linha 51, que passa por alguns bairros "barra pesada" aqui em Natal. Tudo estava normal, até que subiu uma galera da "Máfia Vermelha". Eles subiram fazendo barulho, muitos passaram por baixo da roleta. O motorista reclamou e pediu que todos descessem, então começou uma confusão. Os torcedores saíram depois de muita gritaria e começaram a chutar o ônibus e a jogar pedras; uma acertou uma janela e feriu a perna de um rapaz. O motorista foi até a delegacia prestar queixa e depois o ônibus seguiu seu roteiro normal.

Confesso que fiquei bastante assustada, pois nunca havia presenciado um ato violento desse tipo. É impressionante como o “amor” a um time acaba se tornando violência sem sentido. Não é por uma causa, não é pelo time, não é por causa do sistema, àqueles que sempre têm uma desculpa do tipo. É pelo simples prazer de provocar medo, destruir, prejudicar. Será a falta de instrução a culpa desse ato idiota e sem sentido? Quando se olha de fora é bastante fácil achar brechas e dizer que é tudo culpa da situação, mas quando acontece com a gente a história é outra.

Eu não gosto de futebol, não gosto de ir ao estádio, não gosto nem de jogo da seleção brasileira. Acredito que, se esse tipo de violência acontece antes do jogo, nos estádios é bem pior. Enquanto as torcidas organizadas ficam fazendo esse papel ridículo, o “pão e circo” continua, violência dos dois lados: governo e população. Ver pessoas se matando e matando por algo que deveria ser tão saudável é realmente uma lástima. Parece que o sonho da boa educação ainda está muito distante.

Enquanto eu, que só queria voltar pra casa, estava abaixada no ônibus pensando: “tomara que não acertem minha janela”. E eu só queria voltar pra casa...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

13 de Julho: Dia Mundial do Rock

por Icaro
Por Márcio Death

Rapaz, eu descobri que a vida não era tão horrível quanto parecia lá pelos meus 11 anos de idade, quando escutei um rockzinho maroto pela primeira vez.

Daí já se passaram outros 19 anos, e eu agradeço eternamente por nunca ter me tornado um forrozeiro de bosta, ou um fidumaputa de baladinha e dance music, e essas porcairas que há por aí.

Ainda tive a sorte de ser do interior, onde rock era coisa do capeta e cabeludo era maconheiro e tatuagem nem pensar, só se fosse de cadeia.

Era bom demais andar no meio daquela gente ignorante cheio de pulseiras pontudas, todo de preto e com calças rasgadas, e o melhor de tudo, sempre curtindo o bom e velho rock'n'roll, porque ele é e sempre será o centro de tudo na minha vida.

Foram tantas confusões em casa por causa dos discos, do volume, das roupas e do cabelo que eu nem me lembro mais.

Só sei que não faria nada diferente, não seguiria outro estilo de vida, ainda que isso me custasse algumas coisas.

Mas só o que me custou foi muita diversão, muita birita, pouca mulher, e tudo que o rock costuma proporcionar.

Fico puto com esse povo de hoje, desculpe alguém se a carapuça servir, que prefere estar na merda da internet falando bosta do que ir a uma boa festinha de rock, ou do que sair pra tomar uma com os amigos e curtir um bom rock, e enchem o saco falando de bandas porcarias, de rock modinha, de rock viadinho, como se isso fosse rock de verdade.

Mas bem, se é assim que essas pessoas se divertem, eu devo aceitar, mesmo que sinta pena delas.

Mas rock é diversão, em todos os sentidos, só isso e nada mais, é pura curtição, zoação, enfrentamento de limites estabelecidos por imbecis que se acham donos do mundo e das mentes; é libertação.

Escrevo isso enquanto escuto "Arise", do tempo que o Sepultura prestava, e daqui há pouco vou botar Ramones pra tocar.

FELIZ DIA MUNDIAL DO ROCK PARA TODOS!
FELIZ NÓS!
INFELIZES OS OUTROS QUE NÃO SABEM O QUE É BOM DE VERDADE!

O melhor de tudo é ver que Caicó, esse cu-de-mundo-sujo-e-fedidinho, depois de quase 20 anos ainda mantém viva, e muita viva, a chama do rock.

Caicó teve sua primeira festa de rock muito antes de Natal e de outras cidades e capitais do Nordeste, pouco tempo após o Rock In Rio I, em 1985.

De lá pra cá já houve altos e baixos, poucas e boas, muitas e ótimas, e o negócio não teve mais fim.

Até hoje estamos aí, são bandas em atividades, festas rolando, gente se organizando pra ir a festas em outras cidades, cachaça todo dia e rock tocando alto, o tempo todo.

Muitos dos antigos se foram, se perderam no tempo e provaram que não eram de verdade, mas muitos ainda estão aí, com força total.

Meus cabelos já caíram aos montes, não uso mais as pulseiras com pregos e nem as calças rasgadas, ou melhor, não tanto quanto antes.

Mas ainda estamos aí, somos muitos, somos vários, de muitas raças, mas com um gosto certo no que é bom e divertido.

Não sou eclético, não sou compreensivo, odeio todo o resto, forró moderno, pagode, axé, sertanojo, e outras bostas e quero que todos morram horrivelmente. Não falo de Gonzaga nem de alguns MPBs porque eles serviram para muito do que temos hoje em várias vertentes de culturas diferentes.

Mas se forem malditos modismos, esses, até os pseudo-rockers, me dão nos nervos.

Mas é isso aí, se todo mundo fosse igual a vida não teria a menor graça. De quem iríamos rir o tempo todo?

Pela segunda vez,

FELIZ DIA MUNDIAL DO ROCK PARA TODOS!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Êita Caicó...

por Tahiane

Eu nunca, absolutamente nunca, perdi uma Festa de Santana. Como boa caicoense que sou, assim que começam as férias da universidade me mando pra cá. Chegar é sempre uma festa, os amigos, a família, vovó com um pudim de leite já me esperando, Dida com as ultimas novidades da família, mainha, painho, meu irmão cada dia maior... Depois vem as visitas aos bebês das amigas, andar sozinha na Coronel Martiniano, tomar um sorvete e depois uma cerveja lá em Zeca Barrão. A noite ir pra a praça com a galera, conversar e beber (alimentar a alma é preciso!), me entregar aquele nada-pra-fazer gostoso de Caicó...

E a comida... Ah, a comida! Queijo de manteiga, paçoca de carne de sol, feijão verde, arroz de leite, macaxeira cozida com manteiga ou então frita, vovó faz tudo quando os netos chegam...

Caicó parece que engole a gente, quem é daqui ou já morou sabe. Eu particularmente não compartilho a fé dos caicoenses. Não sou de nenhuma religião, não acredito em inferno, em céu, ou em santos. Deus pra mim é um conceito pessoal, e nem cabe nessa palavra. Mas me lembro de quando eu era criança e minha mãe passava com o carro embaixo do arco do triunfo para receber a benção de Sant'Ana, lembro da minha avó rezando, coisa que ela faz desde sempre, e lembro que eu adorava quando minha tia me levava na cetedral, pra mim era o lugar mais bonito do mundo. "Santana é uma santa de sorte", eu pensava.

Só senti falta de uma coisa depois que cheguei: o sol. Cadê o sol, Caicó? Que clima ameno é esse? Porque todo mundo sabe que caicoense tem medo de chuva! Ninguém sai de casa quando chove, só os moleques que correm, já com os lábios roxos de frio, pra debaixo das bicas. Agora é esperar a festa começar, aquela multidão de bocas mastigando, churros na praça, ver as crianças no carrossel, as garrafas de manteiga da terra voando dos estandes na feirinha...

Enfim, já falei demais, ainda tenho um monte de lugares para visitar, e nem fui ao Itans ainda...

-------------------------------------------------------------------------------------------

P.S: Nós do Subterrâneo iremos produzir uma série de documentários curtos sobre a cidade que serão disponibilizados aqui no blog mesmo. Nesse meio tempo ficaremos mais inativos, mas nunca parados.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Naquele tempo era bom demais...


Pensando cá com meus botões e ouvindo os foguetões da rua lembrei-me do "meu tempo". Naquela época, não sei bem ao certo com quantos ano de vida eu contava, eu só lembro que julho era o mês mais feliz do ano. Bem no comecinho de julho todos entrávamos em férias na escola e era aquela farra, ao contrário de dezembro, no mês de julho ninguém viajava e sempre estávamos todos reunidos brincando, arengando, bagunçando e dando trabalho aos nossos pais.

As brincadeiras eram as mais variadas: havia o resto de fogos do são joão para soltar, podíamos brincar de esconde-esconde, jogávamos vôley com uma rede feita de cordão de estender roupa, corríamos no pega-pega, alugávamos mais de cinco filmes de uma vez só, podíamos andar de bicicleta até mais longe um pouco, íamos aos clubes caicoenses tomar banho de piscina aos sábados, gravávamos músicas nas fitas K7 para depois copiarmos a letra e dublarmos fazendo coreografias, dentre outras. Mas havia ainda outra característica especial do mês julho que era esperar a festa de Sant'ana começar. Esperávamos com a maior ansiedade do mundo a chegada dos parques, esta era maior ainda quando víamos algum brinquedo novo ser montado.

Lembro que todo ano eu fazia um cofrinho com uma margarina seca para juntar alguns trocados para gastar na festa, mas eu nunca conseguia resistir e gastava na outra semana. Ainda me vejo tomando "abença" àquele meu velho tio de oitenta anos que sempre retribuía com um "agradinho" em notas ou moedas. E quem nunca voltou para casa com a boca vermelha de tanto tomar sorvete de máquina? De fato que eles eram super-higiênicos para não dizer o contrário, mas quem se importava? Lembro também da surra e das boladas que eu tomei na cara na primeira vez que eu fui dar uns pulos no balão, nunca esqueci, mas também foi a primeira e última, depois daquela não tinha quem me pegasse no "mortal".

Depois tudo mudou... e em vez de esperar julho para brincar ou para ir à pracinha procurar uma aventura no parque de diversões, nós saímos de casa para procurar as sobras dessa alegria pueril em outras coisas, as vezes em coisas artificiais que nem valem tanto a pena. Talvez ser feliz com pouca coisa,- sem buscar explicação ou sentido para sorrir - seja um dom que pertence apenas às crianças.

Enfim, mais um mês de julho começa e mais uma festa de Sant'ana está se aproximando. Nessa festa eu não terei meu velho tio para pedir abença. Não fico me perguntando quantas voltas eu darei por noite, nem tomo mais sorvete de máquina, mas com certeza eu darei umas voltas pelo parque em busca de aventuras, só para ver qual é... talvez monga, talvez canoão, talvez twister... quem vai comigo? Eu pago duas cervejas geladas depois. =)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

"Travesti também tem sonho de cinderela"

por Tahiane
A natalense Leilane Assunção cursa doutorado em ciências sociais, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aos 28 anos, dos quais 18 foram vividos num corpo de homem, é a segunda transexual doutoranda no Brasil, também foi a primeira do RN a ingressar numa instituição de ensino superior.

Você é a segunda transexual brasileira a cursar doutorado. Quando você descobriu isso?
Eu não tinha nem acesso a essas informações sabe? Confesso que sempre fui muito desengajada dos movimentos sociais de cunho gay. Eu tenho uma crítica muito forte em cima desses movimentos, em termos de Natal pelo menos que é a minha experiência. Então, conseqüência inclusive desse desengajamento, eu acabei ficando alheia em relação a como isso estava acontecendo. Pra mim isso também foi uma surpresa, eu não sabia de nada. Resta saber quem vai ser a primeira a defender a tese né? Eu acho que uma corrida saudável acaba de se iniciar entre eu e ela. (risos)

Agora que você conhece as estatísticas, e a partir do momento em que isso se torna público, você se torna um exemplo. Como você lida com a responsabilidade de ser referência?
Há algum tempo eu comecei a ter clareza de que eu poderia em algum momento vir a desempenhar esse papel, principalmente quando eu me encaminhei pra terminar a graduação. A partir do momento em que eu terminei a graduação e entrei no mestrado, eu comecei a perceber o assédio moral de outros gays já me buscando como essa referência. E, confesso, é muito complicado porque as pessoas às vezes perdem um pouco a distinção entre a admiração e a imitação. Hoje, já no doutorado, com os amadurecimentos intelectuais que vêm se processando em mim, eu já começo a ter outra clareza dessa idéia de referência. Então, hoje eu compreendo um pouco melhor e acho que estou mais preparada para responder a essas solicitações, no entanto, essa coisa de “Leilane referência” eu quero que se manifeste como uma coisa intelectual, não como um modelo de transexual perfeita.

Você já tinha amigos gays e transexuais antes? Como foi a aceitação desses amigos quando você resolveu virar transexual?
Já... Mudou radicalmente. Quando eu era gay eu tinha uma relação melhor com os outros gays, quando eu passei a ser transex, eu passei a ter uma relação melhor com os outros transex. Por que dentro do meio existe muita rivalidade, muita intriga, disputa entre gays e travestis. Muitos amigos meus gays passaram a me discriminar, pararam de freqüentar a minha casa, não mais me convidar à casa deles...

Então existe preconceito dentro do próprio meio...
Às vezes ele é até mais violento do que fora do meio. Não que isso vá servir para justificar o preconceito hétero em relação à homossexualidade, já que existe preconceito contra a homossexualidade dentro da própria. É outra dimensão do preconceito que precisa ser igualmente combatida.

Como foi esse processo de inserção na universidade? Você já era transexual antes de entrar na UFRN ou foi um processo que aconteceu durante a vida acadêmica?
Aconteceu durante. Antes de entrar na universidade eu via em filmes, em novelas, onde muitas vezes se mostrava a experiência universitária como um divisor de águas, e eu almejava isso. Para mim foi nesse sentido mesmo, eu entrei uma pessoa e hoje sou outra. Quanto ao processo de inserção, eu posso lhe dizer que não foi nada fácil e continua a não ser. Eu vou usar uma frase do velho lobo Zagalo que diz: “Vocês vão ter que me engolir”. E eu acho que é mais ou menos isso que eu estou fazendo com a UFRN, a universidade tem que me engolir. Tem que me engolir porque simplesmente eu tenho os méritos para isso. Eu venho, desde a graduação, construindo uma trajetória intelectual, sócio-cidadã de respeito, digna, abrindo esse espaço cada vez mais. E eu sei que quando eu abro esses espaços eles não são só para mim, em longo prazo, eles são para o gênero.

Você sofreu preconceito dos funcionários da universidade também?
De toda sorte de criaturas. Passando por funcionários, seguranças, estudantes, professores, visitantes... Em todos os meios sociais nós encontramos pessoas preconceituosas. Eu não sei quando é pior: se é quando elas são instruídas ou quando elas são ignorantes. Por que quando elas são ignorantes o preconceito é vulgar e quando elas são instruídas o preconceito é cínico. Eu não sei qual é o pior, mas prefiro o cínico porque me permite responder à altura.

Geralmente existe um preconceito familiar enorme quando se é gay, e muito maior quando se é transexual. Como a sua família encara a sua situação?
Hoje em dia está mais tranqüilo, exatamente por causa dessas conquistas que me deram legitimidade dentro de casa. Então, por exemplo, eu sou de uma família de professores, tenho três irmãs professoras, uma inclusive mestre em ciências sóciais pela UFRN, ela foi até o mestrado e parou, ou seja, eu vou ser a primeira doutora da família e eu sou a filha mais nova.

E na época? Como sua família encarou?
Foi o seguinte: eu venho de uma família protestante, puritana, passei a minha adolescência incólume sexualmente, eu perdi minha virgindade aos 19 anos. Mas, por quê? Porque eu estava envolvida dentro de um conflito moral muito pesado dentro da formação que eu tive, o conflito da descoberta da homossexualidade aos 12, dos 12 aos 15 eu passei por um processo de depressão profunda, de negação. Dos 16 aos 18 eu passei por um processo de aceitação, uma fatalidade da vida: eu sou assim, não vou poder mudar. Não adianta nada pedir a Deus para dormir e amanhecer menina que isso não vai acontecer, porque eu, na minha ingenuidade, aos 12 anos, criada em igreja evangélica, tive coragem de pedir isso a Deus. E aí aos 18 chegou aquele período da aceitação que eu não me contentava mais em representar um papel social pra agradar a minha família. Cadê as namoradas que nunca apareciam? Eu era delicado, franzino... Sai de casa e me assumi. Mas dos 18 aos 21 eu passei por outra depressão profunda. Eu me assumi e não conseguia ser feliz ainda. Pensei “não adianta, um homem nunca vai me ver como mulher e me satisfazer sexualmente como eu desejo na condição física masculinha em que estou”. Nessa fase eu já cogitava virar travesti, mas eu pensava “E a carreira acadêmica? E os amigos? E a família? E os empregos?”. Mas um dia eu chutei o pau da barraca e pensei que nada iria valer a pena se eu não fosse feliz. Sumi da vida familiar por seis meses e comecei o meu processo... Só que a vida me fez ter que voltar pra a casa da minha mãe sem nada, depois de 4 anos morando só, acima de tudo nessa condição nova que ela ainda não conhecia.

Como ela reagiu a isso?
Quando eu cheguei em casa ela quase caiu pra trás. E começou a combater de todas as formas, ela tinha vergonha quando o pessoal da igreja chegava. Eu entendo o lado dela... Na época foi muito dolorido ver isso, mas serviu pra mostrar que a vida não é como a gente quer, a vida é como ela é! O tempo foi passando, eu virei bolsista CNPQ na graduação, minha orientadora foi lá em casa e me elogiou, eu terminei o curso, entrei no mestrado, mamãe fez uma festa de aniversário pra mim e vários professores meus foram, me elogiaram também. E o tempo todo naquele diálogo dentro de casa: “mamãe, o fato de eu ser travesti não significa que eu não tenha valores, que eu não tenha moral, dignidade”. Então, de tanto bater nessa tecla, de tanta conversa, de tanta conquista, eles cansaram de lutar contra. Eu sei que não é uma satisfação, acho que, com a idade que eu tenho, minha mãe queria que eu tivesse uns três filhos e fosse pastor de uma igreja evangélica.

Você luta pela cirurgia de mudança de sexo pelo SUS. Como anda o processo?
Acho que não vai sair tão cedo... O ministério da saúde baixou uma portaria que os hospitais universitários têm que adaptar, tem um prazo, mas me parece que aqui em natal esses encaminhamentos estão muito lentos, muita desinformação. Já fui no (hospital) Onofre Lopes e disseram que não tem ainda nenhuma previsão. Está sendo muito combatido na justiça pelas bancadas católica e evangélica que consideram que o dinheiro que está sendo gasto nas cirurgias de transexuais é dinheiro publico, desviado de obras prioritárias. Eles entendem como um esforço absolutamente supérfluo de um indivíduo que nasceu num corpo com o qual não se identifica, de transformá-lo. Se eu morasse num grande centro, como São Paulo, certamente eu estaria bem mais próxima de conseguir isso. Eu estou indo no meu ritmo, o doutorado é uma prioridade acima dessa, hoje. Então, é muito nesse sentido, mas se eu morrer antes de fazer minha cirurgia não terei ido em paz.

Quais são seus planos para o futuro?
De imediato, é um doutorado brilhante, com intercâmbio na Alemanha, levar minha formulação às últimas conseqüências, se é que eu posso dizer assim... Eu quero ampliar meus horizontes intelectuais de trabalho, de epistemologia da ciência. Logo imediatamente depois, eu pretendo prestar concurso para alguma universidade federal brasileira. Não sei se da UFRN, mas, eu me vejo sendo professora da universidade publica brasileira. Me vejo com a cirurgia feita, o nome mudado, às vezes me vejo bem carola, conservadora, numa clássica família burguesa, travesti também tem sonho de cinderela. E às vezes me vejo também como uma mulher pós-moderna, independente, morando sozinha... A vida é quem vai me mostrar.

-------------------------------------------------------------------------------------------

Essa entrevista foi meu trabalho da 3º unidade da disciplina Oficina de Texto III, gostei muito do resultado e resolvi publicar aqui. Eu não fiz foto, então essa foto foi retirada na cara-de-pau do DN online. Espero que gostem.

sábado, 20 de junho de 2009

Diploma, who?

por Tahiane

Imagine só: fim de semestre, ficando quase louca com os milhares de trabalhos da universidade, sem tempo nem pra ler as notícias na internet, chego em casa e minha prima diz "Parabéns, rasgaram o seu diploma". Ok, calma. "Todo mundo já tá sabendo menos você, que vive no mundo da lua". Daí eu penso "Puta-que-pariu, realmente aconteceu"! Uma hora eu iria ter que pensar sobre esse assunto...

Eu, como universitária, deveria me sentir injustiçada. Eu ficarei anos na universidade estudando para ter um diploma que não vale mais nada? É. É realmente revoltante e blá bláblá. Mas foda-se cara, eu vejo milhares de filhos-da-p[a]uta saindo das universidades todo ano! Muitos só querem ganhar dinheiro, vender, vender, mentir, "manipular", muitos não tem comprometimento social. Existem muitos grandes jornalistas sem diploma, pessoas que realmente honram a profissão.

Esse diploma nunca foi obrigatório, não vai mudar muita coisa... Aliás, o diploma elitizou o jornalismo, fez com que as redações ficassem abarrotadas com a classe média, tornou os editoriais de moda mais importantes do que os anseios da população, mecanizou a escrita e tornou a nós jornalistas(agora já posso me chamar assim, mesmo sem um diploma né?) reféns das regras.

O texto ficou mecanizado e desumano, a idéia de imparcialidade, que, ao meu ver, é inatingível, faz com que nós jornalistas sejamos apenas meios difusores e não seres humanos. Devemos ser meros robôs?A grande mídia é de fato mídia, meio e alguns são apenas isso. Na minha opinião, o jornalismo pode sim ser exercido por qualquer pessoa que tenha comprometimento social. Quanto a questão mercadológica, se você é bom você se destaca. É assim que eu penso.

Acho que vou mudar pra Ciencias Sociais e continuar pagando algumas disciplinas de comunicação... mas não sei ainda...preciso maturar essa idéia...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Seria a Google a Skynet?

por Icaro
Na fila do supermercado anteontem me deparei com a revista Galileu. Nunca fui fã de nenhuma publicação da Editora Globo e nunca me interessei em ler nada deles, mas, nem tudo é uma fossa a céu aberto em se tratando do conglomerado de Roberto Marinho. A matéria (de capa) que me chamou atenção fala de outro conglomerado, bem maior e mais importante: o da Google.

A matéria mostra, com dados da própria empresa, como você, eu e qualquer outra pessoa no mundo estão sendo "monitoradas" pelo nome mais importante do Vale do Silício. Mais de 65% dos internautas, hoje, usam algum serviço da Google pelo menos uma vez por dia; Google Search, Orkut, Gmail, Youtube, Blogger/Blogspot, Google Maps, Google Earth, Google Street View, Google Talk, tradutor, biblioteca e por aí vai.

Todas essas informações são guardadas nos servidores da empresa. Daquela receita de miojo a "como aumentar o pênis". Segundo eles, é tudo para facilitar sua vida. Quem colocaria a mão no fogo?

Muita gente não sabe, mas cada conexão à internet gera um IP (Protocolo de Internet na sigla em inglês), um número único (geralmente não fixo) que funciona como uma identidade, um RG, que pode mostrar de onde aquela conexão vem. Com o IP de alguém em mãos (coisa que hoje é muito simples) e uma pesquisada básica no Google, você pode saber até a rua de onde aquela pessoa está acessando. Isso você, em sua casa. Imagine agora o que uma empresa com seus dados do Orkut, suas buscas no Google Search e vídeos assistidos no Youtube, tendo acesso a todos os seus e-mails... Imagine do que ela é capaz. Como diz no início da matéria, "o Google sabe mais sobre você do que a sua mãe."

Muito interessante a reportagem. Mesmo que você não se interesse por tecnologia, dê uma lida; trata-se tão somente de sua futura liberdade (ou da atual falta de privacidade).

Abaixo deixo o link para o site da revista. Como é a última edição, o texto não está na íntegra. Mas, como eu não devo nada a ninguém (muito menos aos filhos de Roberto Marinho), segue também o link para download da revista completa (em PDF).

Trecho da matéria no site.

Download da revista completa.

É o futuro de John Connor cada vez mais perto da realidade. =D

terça-feira, 2 de junho de 2009

Sangue, Merda e Sapiência

por Tahiane

Ei, você ai! Quem você pensa que é? Aonde você vai com toda essa pretensão? Grande coisa ser Sapiens e destruir, parasitar o planeta. É isso mesmo que você é: um carrapato. Sugando e engordando, sugando e engordando, sugando e engordando... Assim você segue sem respeito nenhum pelo que te alimenta. Só porque você TOMOU essas coisas, não significa que você tem tudo, que você pode destruir tudo. E daí se você tem dinheiro? Isso não passa de matéria podre e, no fim das contas, alguns elementos essenciais que formam todas as coisas. No fim das contas você é feito do mesmo material que um monte de merda ou o mais fedorento dos vômitos. Você come e caga, polui, explode, destrói, modifica as coisas, cultua um Deus que nem sequer conhece. Passa a vida toda tentando conseguir mais daquele papel que você acha que tem valor e esquece o que realmente tem valor. Porque você não tem valor algum, não faz a menor idéia do real das coisas. Você nunca parou para observar realmente uma coisa, a percepção pura e genuína é como norte+norte de um imã pra você. Quantos de vocês realmente sabem? O que será que passa pela sua cabeça cheia de produtos químicos e drogas sintéticas? O que será que você respeita? Respeitar realmente, não admirar. Você admira quem destrói em nome do progresso, quem mata, quem dissimula, quem persegue a todo custo esse monte de merda em que você quer viver, mas você não respeita nada. Você cria leis, códigos de conduta... Pra que, se você é essencialmente mau e não faz idéia do que realmente seja importante? Você diz que ama, mas não faz idéia do que seja o amor, o afinco a todas as coisas, como ser tudo e ter raízes em tudo. Suas raízes não estão presas a nada, você migra no velho esquema do carrapato. Sugando e engordando e sugando e engordando. Você não passa de um monte de lixo, ninguém precisa de você, então por que toda essa pretensão? Você não tem valor, apenas consegue enganar uma dúzia dos seus... Mas você não engana o tempo e esse vai cuidar de limpar você daqui, e de qualquer outro lugar. Você vai passar pelo tempo e virar nada, você veio do nada e vai voltar para o nada. Como isso que você sempre foi: nada.

domingo, 31 de maio de 2009

Duas Tragédias, Dois "Brasis"

por Icaro
Acompanhando os telejornais esses últimos dias e vendo aquela tragédia em Cocal, no Piauí (além de todo o resto do nosso amado Nordeste, é claro), fiquei me perguntando se o resto do país estava nos ajudando. Hoje fui procurar no Deus Google dados sobre essas chuvas - mortes, desabrigados, cidades afetadas, etc - e encontrei um ótimo texto do jornalista Rodrigo Brancatelli, do Estadão.

Segue o ctrl+c / ctrl+v.

Em negrito, a tragédia em números.



Por Rodrigo Brancatelli

Depois que participei no ano passado da cobertura do Estadão das enchentes em Santa Catarina, onde fiquei duas semanas e meia, muitos me perguntaram se a comoção seria a mesma se a tragédia ocorresse no Nordeste. A resposta poderia resvalar num puro preconceito, é verdade, mas as chuvas que há quase dois meses castigam a parte de cima do País trouxe o assunto de volta à tona.

Comparando números da tragédia que ocorreu em novembro do ano passado em Santa Catarina com a que acontece atualmente em nove Estados do Nordeste, parecem dois países diferentes. Santa Catarina teve 63 cidades afetadas, 137 mortes, 51 mil desalojados e 27 mil desabrigados. No total, a estrutura de suporte para lidar com as enchentes contou com 24 helicópteros e 4 aeronaves da Força Aérea. Doações da sociedade totalizaram R$ 34 milhões e o governo federal e o Congresso Nacional prometeram a liberação de R$ 360 milhões.

Apesar de um número menor de mortos até o momento, 45, o Nordeste tem 299 cidades afetadas, 200 mil desalojados e 114 mil desabrigados. Mesmo assim, com um número 4 vezes maior de pessoas que precisam urgentemente de ajuda, só 3 helicópteros e 3 aeronaves atuam na região. E as doações não alcançam R$ 4 milhões. Até o momento, quase dois meses após o início das tempestades, o governo federal não destinou uma “nova” verba aos Estados nordestinos – as cidades atingidas ainda esperam um repasse de R$ 23 milhões desde as enchentes do ano passado, referente a empenhos do Orçamento de 2007, e o Ministério da Integração Nacional promete assinar hoje uma outra Medida Provisória.

Um exemplo claro da discrepância – ontem, parte dos donativos destinados a vítimas das chuvas em Teresina foi para o lixo. Isso porque o material doado, principalmente por particulares, estava sem condições de uso. “Recebemos colchões velhos que não têm mais serventia, por exemplo. Se alguém deitar num colchão daqueles vai pegar uma doença respiratória", explicou a secretária de Comunicação de Teresina, Cristiane Ventura.

Para especialistas, isso é resultado do nosso próprio imaginário – o Nordeste está acostumado com tragédias parecidas, então isso já não chamaria mais a atenção. No sul, pelo número maior de mortos em um período menor de tempo, o choque é maior.

sábado, 30 de maio de 2009

A Casa sem Paredes...

por Tahiane
Eu moro num típico bairro de classe média, daqueles relativamente tranqüilos, onde algumas pessoas ainda conversam nas calçadas e conhecem o dono da banca de revistas. De uns tempos pra cá, ao lado de uma vidraçaria, algumas pessoas sem teto se instalaram na calçada. Não é uma visão muito comum no bairro, então causa uma espécie de confusão visual, mais do que isso, me causa uma confusão mental.

Todos os dias eu passo por aquelas pessoas, umas seis crianças, sendo duas delas bebês e duas mulheres adultas. Todos descabelados, sujos, e com o mesmo olhar: o olhar de quem enfrenta todos os dias os perigos das ruas. Essas pessoas ficam sentadas na calçada e, enquanto dois bebês brincam com um pedaço de papelão, uma menina subnutrida pede esmolas a quem passa. Essas pessoas não fazem idéia se comerão no outro dia, não fazem idéia de como sair daquela situação. Não fazem idéia porque não sabem viver de outra forma.

Os bebês nasceram naquela situação, vão crescer e aprender mais e mais rápido sobre a vida nas ruas. Essas crianças não freqüentam a escola, não tomam banho todos os dias, não penteiam os cabelos, não escovam os dentes, não ouvem histórias antes de dormir e não acham que são princesas ou super-heróis. Elas sabem desde muito cedo o que é a vida e sabem que precisam lutar para sobreviver. Elas sabem o que acontece com quem vacila. As mães irão continuar fazendo filhos, muitos deles.

Essas pessoas são excluídas do sistema, vivem à margem. Essas pessoas fazem parte de uma parcela gigantesca da população mundial que não tem uma casa, que não tem condições mínimas de vida. Eu passo e vejo os bebês brincando com pedaços de papelão e me sinto culpada. Me sinto culpada porque todos os dias eu vou para a minha casa, tomo banho, como e durmo, vou à universidade, faço inúmeras coisas que para essas pessoas é algo meramente ficcional.

A minha impotência diante dessa situação me faz descrer cada vez mais deste sistema, me faz descrer cada vez mais das pessoas e de mim mesma. Eu não sei o que fazer diante desse tipo de situação. Cadê o governo? Cadê Deus? Cadê as instituições de caridade? Não sei. Eles, provavelmente, também não sabem.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Documentário "Garapa" mostra fome no Brasil

por Icaro
Por Luara Oliveira, do Cineweb

Qualquer prato de comida, por mais light que seja, parecerá indigesto após a sessão do documentário "Garapa", de José Padilha, que estreia sexta-feira. À mesa, não se senta a família do comercial de margarina, mas representantes de 11,5 milhões de pessoas que vivem em situação de insegurança alimentar no país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Em preto e branco, o filme de Padilha ("Ônibus 174" e "Tropa de Elite") registra o cotidiano vazio de três famílias do Ceará, que aplacam a fome de seus filhos com a garapa do título, composto de água e açúcar servido às crianças para substituir o leite praticamente inexistente.



Sem trilha sonora, com câmera na mão e lentes fixas, "Garapa" quer que o espectador olhe de perto as estatísticas já conhecidas, durante longos e angustiantes 110 minutos. É parte desse jogo, então, a transmissão de informações sobre mortalidade infantil e a apresentação de imagens recorrentes de crianças cobertas por moscas.

Padilha começa o filme como fez Nelson Pereira dos Santos em "Vidas Secas" (1963). Só que, aqui, os passos decididos do protagonista Fabiano e sua gente são substituídos pelo caminhar automático de mães, que peregrinam até o povoado mais próximo em busca de comida.

A cena documental ganha moldes de ficção graças a montagem de Felipe Lacerda ("Ônibus 174", "Entreatos" e "Se Eu Fosse Você") que, paralelamente, contrapõe a caminhada das mulheres à espera das crianças em casa.

O longa foi filmado em 2005, mas só agora chega aos cinemas. A produção foi interrompida depois que o diretor recebeu o convite para realizar "Tropa de Elite" (2007), vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim. Mas o tempo ajudou Padilha que adquiriu agora maior visibilidade para levantar a bandeira contra a fome no Brasil e no mundo.

"Garapa" também tem sido visto como arma para pleitear a aprovação de um Projeto de Emenda Constitucional para transformar a alimentação em direito garantido pela Constituição.

Pela boca de personagens subnutridos, projetos como o Bolsa Família e o Fome Zero, são legitimados embora considerados insuficientes. A solução, no entanto, parece distante já que essas pessoas estão longe de se inserirem no contexto econômico de mercado, uma vez que não consomem nem o básico.


Em "Garapa", o ser humano não tem autoestima, não tem sonhos e aceita, resignado, sua condição frente à vida e debita a conta à vontade de Deus. A questão é que Padilha aponta a câmera não para indivíduos mas para um grupo de desvalidos, coeso e uniforme, que desperta a mesma compaixão que um animal maltratado.

Por mais que se tente, não se consegue enxergar as pessoas, e o material humano é mero objeto quando o que importa mesmo é o tema. Mas é mérito do filme nos fazer corar de vergonha diante do desperdício e da banalização do consumo de alimentos nos restaurantes da vida.

sábado, 23 de maio de 2009

Cada Doido com sua Pedra

por WART
"É naquela rua que tem o cachorro louco. Sim, ele é louco mesmo. Quando passo, ele fica latindo feito doido, rodando em volta do rabo e sua loucura é tão grande que ele próprio bate sua respectiva cabeça no portão. Um dia aí, passava eu feliz naquela rua tranqüila e residencial. Mas o cachorro, que ali eu avistei, estava solto. Passeando e latindo feito desesperado e deixando os outros cães enlouquecidos."

Eu sou louco. Sim, eu sou louco. Já nasci assim com essa ruma de idéias que as pessoas fazem questão de dizer que não fazem sentido. Mas, peraí... se para mim minhas idéias fazem sentido, logo, eu sou normal e todas as outras pessoas que dizem que sou louco é que na verdade são loucas! Não, eu não sou louco, posso ser estranho, sim, estranho, mas louco não. Talvez só um pouco doido...

Afinal, paremos (eu) com as divagações e tentemos falar de coisa que preste: o que é a loucura? é a loucura realmente tão louca quanto dizem? e ainda, sobre como a sociedade é responsável pelo endoidecimento de pessoas sãns.

Meu amigo Aurélio Século XXI diz que a loucura é o estado ou a condição do louco, é a falta de discernimento, a irreflexão, o absurdo, a insensatez, a doidice, a louquice, a maluqueira, a maluquice e a malucagem. A minha amiga Wikipédia diz que é uma condição da mente humana caracterizada por pensamentos considerados "anormais" pela sociedade. Certo. Digo desde já que não falarei da patologia em si, isso fica para os profissionais (que creio serem mais loucos que os próprios loucos para conseguirem lidar com a loucura), irei tão somente me dedicar a tentar passar minha transtornada opinião.

É costume questionar a lucidez de todo aquele que se apresenta de maneira divergente do resto das pessoas. O modo de se vestir, a maneira de falar, o comportamento, as idéias, dentre outras coisas, são prontamente analisadas pelos "normais" e de imediato censuradas quando não seguem os padrões da sociedade, como se ter opinião própria fosse algo proibido. "Tenha opinião própria, desde que seja igual à nossa". Isso sim não faz sentido.

Vejam bem, um canibal é um louco, certo? Por quê? "Porque ninguém come carne de gente e matar pessoas é errado, oras!" Ok, mas, e quem disse que estamos certos? Estamos certos sim, mas no limite das nossas leis e costumes sociais, contudo, isso não faz delas verdades universais imutáveis. Existem tribos ainda nos dias de hoje nas quais é normal comer carne humana, para eles nós é que somos os doidos e não sabemos o que estamos perdendo (vá lá neles dizer que eles são loucos e que estão errados pra você ver...). Essa loucura é tão somente uma contradição ao cotidiano, à nossa realidade. É claro que eu usei um exemplo extremo, mas que se aplica do mesmo modo a fatos simples, mas que ofendem muito àqueles que são os considerados loucos, mesmo que loucos por opção própria.

De outra forma, é mais comum do que se pode imaginar o fato de pessoas aparentemente normais pirarem da noite para o dia devido à pressão psicológica imposta pela sociedade. O mundo em que vivemos não é justo, ele exige muito do indivíduo, ele estressa, ele impõem, ele suga até esgotar todas as fontes de energia, acabando totalmente com a saúde física e mental daquele que escolhem como alvo, ou, no caso, que se predispor à tal posição (não falo, pois, de predisposição genética, mas sim de predisposição social).

Nesse mundo capitalista extremamente consumista que nos rodeia você é o que você tem, se não tem, não é ninguém (rimou!). Há esta preocupação exacerbada com aparências e posses e todo este exibicionismo e autopromoção que vão, aos poucos e cruelmente, esmagando e retirando do caminho aqueles que não conseguem entrar no ritmo. Este terrorismo social, onde a busca pela ascensão se faz primordial, é capaz de perturbar a mente daqueles que almejam elevado status, cria a mentalidade de que é preciso ter grandes posses a todo custo e leva fatalmente à frustração - que em doses excessivas pode criar aberrações.

Enfim, vimos aí dois tipos de loucos: os que assim são por opção, mas reprimidos pela sociedade, e os que foram impostos a essa fraqueza mental pela própria sociedade. A meu ver, para melhor viver, você tem que ter consciência de sua loucura e não se envergonhar dela nem se deixar reprimir, pois, se você não a assumir, virão até você e farão com que você assuma a loucura deles... e viver a loucura dos outros não é nada bom.

-------------------------------------------------------------------------------------------

O parágrafo destacado no início é de um texto de Carolina Hanke, a Carol-ol-ol, o qual recomendo a leitura na íntegra no link abaixo:

domingo, 17 de maio de 2009

Sobre Educação e Direitos

por WART
É comum escutar diariamente pessoas reclamando da administração pública, dos governantes, dos legisladores, da burocracia, da falta de direitos e assim vai. Esta fluência de reclamações chega a ser chata por sua repetitividade, pois sempre são os mesmos problemas, sempre conclui-se que todos os políticos são corruptos, sempre é o mesmo início, meio e fim. Isso deve-se, entre outros determinantes, ao fato da maioria da população não conhecer seus direitos e as leis que os regem. Digo que uma coisa é certa: se conhecessem, reclamariam bem mais!

Então, seria eu contra as reclamações ou a favor? Deveria o povo ser conhecedor dos seus direitos ou não? Porque, se assim fosse, como deixei a entender, as reclamações seriam bem mais numerosas, e a chatisse aumentaria...

Pois digo que não seria mais "chato", haveriam sim mais reclamações, contudo elas seriam melhor fundamentadas, pois o povo estaria munido de conhecimento, não seriam simples palavras jogadas ao vento, não seria o protestar por protestar, haveria uma argumentação válida e uma base sólida na qual se sustentar. O problema é que virou corriqueiro o fato de de tudo se achar ruim, contra tudo se queixar, é como se fosse um velho rabugento que vive a resmungar até da propria sombra, com o tempo deixam de lhe dar atenção.

Como resolver isso? Preparem-se, que não é fácil de engolir:

Temos desde cedo na escola aulas de educação artística, aulas de educação física, aulas de educação religiosa, dentre outras educações dessas. Mas, de todas estas criancinhas que sujam a farda de tinta, de todas essas que chegam em casa suadas e com aquele cheirinho especial impregnado depois de passar a manhã inteira correndo atrás de uma bola, quantas dessas se tornam pintores e artistas conceituados? pouquíssimas. Quantas se tornam grandes atletas olímpicos? nem preciso responder. Agora, quantas dessas se tornam cidadãos, que tem direitos e deveres, que futuramente irão integrar a sociedade participando dela de forma ativa? todas!

Ora, por que não, não substituindo, mas em adição às já citadas matérias, não se faz implantar nas escolas o mínimo de conhecimento sobre os direitos do cidadão? Os mais básicos mesmo, os direitos e garantias fundamentais que cada um de nós temos, que encontram-se devidamente descritos na Constituição? Isso para mim parece ser de uma essencialidade inegável, não vejo nenhuma maneira com a que se possa vir a contestar tal coisa.

Toda criança sabe desenhar uma casa, com um sol, com uma nuvem, uma árvore do lado, toda ela sabe que fazer falta na área é pênalti, dentre outras coisas esportivas dessas nas quais eu nunca me destaquei. Isso tudo é importante, não estou dizendo o contrário, tem sim que fazer parte da infância de todos, mas a longo prazo isso deixa de ter importância, não fará a mínima diferença na vida adulta. Em contrapartida, sendo a criança familiarizada desde cedo com os seus direitos, ela virá a se tornar um adulto bem mais estabilizado quanto ao conhecimento daquilo que fará parte do seu cotidiano: a vida política.

Para todo tipo de problema, o povo acusa logo: "é porque só tem ladrão no governo!" Sim, pode até ser, mas somos nós os únicos responsáveis, nós que elegemos "os ladrões" como nossos representantes. São esses "ladrões" que fazem as nossas leis, que determinam cada detalhe de nossas vidas. Eles estão lá porque assim quisemos e podem, da mesma forma, sair de lá se assim quisermos, é direito nosso. Contudo, é fato que a falta de conhecimento, ou até mesmo o comodismo, nos impede de agir de forma mais participativa. Vou contar um segredo a todos vocês: o Brasil é uma democracia, viu? Isto quer dizer que é governado pelo povo! (de forma representativa, claro). Impressionante, não? Por que não requerer aquilo que lhe é de direito? Não entendo.

Seria perfeito se todos nós soubessemos como funciona o mundo à nossa volta, não haveriam problemas, mas isso é utópico. Seria muito bom se todos nós soubessemos um pouco sobre o mundo à nossa volta, não haveriam tantos problemas, mas isso é bem difícil. Seria muito ruim se nós não conhecessemos nada ou quase nada sobre o mundo à nossa volta, só haveriam problemas por todos os lados... ei, essa é a realidade!

sábado, 9 de maio de 2009

Obrigado, Sr. Rock!

por WART
João vive numa cidade onde todas as pessoas usam roupas azuis. Todos são felizes e contentes nas suas "azulidades" até que um dia João sem querer deixa derramar em sua bela e novíssima camisa pólo um copo de suco de caju, devidamente amarelado por natureza. A camisa fica verde naquele lugar por causa da nódoa. João, curioso que só ele, decide fazer quatro litros de suco e neles mergulha sua camisa. "Por Deus! Ela está toda verde!". João, então, sai pela cidade em pleno sábado depois da missa, todo desconfiado, mostrando sua camisa diferente. A população entra em choque: "Como pode?", "Quem ele pensa que é pra querer aparecer mais que os outros?", "Esse sujeitinho aí nunca me enganou!". Sim, tudo porque João fez algo de diferente. Provavelmente ele será queimado numa fogueira.

"Quanta bobagem!" "Que história mais idiota!" "Perdi meu tempo lendo isso!". Bom, então pare, creio que simples letras como essas não são capazes de mudar seu ponto de vista. Continuarei independentemente disso com meus devaneios:

Este pequeno pedaço de porcaria com o qual iniciei a postagem tão somente serve para exemplificar de modo esdrúxulo como funciona a cabeça de todo e qualquer ser humano, seja ele qual for, em pelo menos um dos vários tabus estabelecidos pela vida em comuna. Falarei especificamente de um, pois, relacionado à nossa querida cidade Caicó (servindo também para qualquer cidade pequena interiorana) - o preconceito musical. Pra quem ainda não percebeu, este blog tangencia para o rock, portanto, falo em nome desta minoria. "Nordeste, cidade de interior, rock? Tu é doido é?" - não, apenas escolhi. Sigamos.

É de conhecimento superlativo que o forró domina nestas áreas, seguido por axé, pagode, samba, afoxé, ilê-aiê, kuduro, bate-lata, latido de cachorro, zuada de porca parindo e, lá na rabeira, rock. O rock aqui simplesmente não tem vez. Nem se balance pra reclamar, o rock aqui é esse povo que "veste camisa preta", que "escuta música do cão", que "é tudo doido", pronto, esse povinho mesmo. Não tem jeito, é do rock, tá lascado. Perceberam o drama? Pronto, é desse jeito. O povo não se mistura se o assunto "rock" está em jogo.

Agora vem a bomba: o pessoal do rock, da mesma forma, age agressivamente quando se fala em forró, ou axé, ou porcas parindo. Para eles (nós?) é tudo "uma ruma" do que o gato enterra.

"Ôxe! Tu tá de que lado, mané?" Tou do lado da razão, digo-vos. Esta rivalidade é uma babaquice da mais extrema demência que possa vir a existir. O rock é rival do forró? A polca é rival da valsa? A lambada é rival dos seresteiros? Os caras que tocam repente toda quarta-feira lá na rodoviária são rivais da música eletrônica? Não!

Desde quando o caráter de uma pessoa se determina pela comida que ela come? Ou pela sandália que ela veste? Ou pelo sotaque que ela fala? Ou pela pior das porcarias anômalas que venha a passar por sua cabeça (desde que devidamente não exteriorizadas ^^)? Ora, somos nós, seres humanos, aquilo que fazemos de bem ou de mal, pelo que contribuímos ou maculamos, não pelo que preferimos ou escolhemos para nós de caráter íntimo. Desde quando, na história da humanidade, uma simples escolha de posicionamento de gênero musical fez tanta diferença? Por que tanto preconceito? É necessária essa aversão? E por favor, não se faça de ignorante aquele que não é "do rock" ao dizer que nunca viu esse tipo de atitude negativa. O pior cego é aquele que é burro, pois todo cego quer ver... (piadinha desgraçada, não?)

As pessoas olham feio sim! Pensam de forma pejorativa sim! Evitam se relacionar sem nem ao menos dar uma chance SIM! Isto, queridos leitores que aqui ainda continuam, não faz o menor sentido, ainda mais por ser com relação à uma coisa tão simples quanto música. Neste mundo onde se mata por migalhas (quem dirá por poços de petróleo), a culpa é toda nossa por criar segregações e classes. Cabe a nós primeiramente a mudança individual, para posteriormente pensarmos em algo maior, sem deixar-nos contaminar por picuinhas.

Enfim, já cansei de digitar (mas não se enganem, não cansei de pensar, nem irei). Desculpem "minhas" incoerências, mas no "meu" mundo existente apenas em "minha" cabeça e que só "eu" entendo, esse texto faz sentido. Nesse mundo a tolerância também se faz uma palavra literal. As aspas ficam à critério de cada um.

sábado, 2 de maio de 2009

Por Favor, Folião, não me Atropele

por WART
Eu sou estranho, fato. Não participo dessas manifestações populares, não gosto de lugares movimentados, procuro sempre estar em locais com poucas pessoas - e de preferêrencia eu conhecendo a maioria. Por que isso logo no início? Para lhe dar a opção de continuar lendo ou não.

Caicó Fest: grande evento de massa em seu quarto ano, carnaval fora de época que se prolonga por três dias e que está a cada ano maior e mais famoso, atrai turistas e traz rendas para nossa cidade, não importando a distribuição.
Gustavo: esse que vos escreve, tendo WART como alcunha no mundo virtual, 24 anos, apesar de ter concluído o ensino superior, ainda estudante, conhecedor das noites caicoenses há quase dez anos.

O que teria eu a reclamar? Pois bem: como dito, há quase uma década moro aqui, Caicó - morei dezesseis anos em João Pessoa, a título de informação. Aqui cheguei e me adequei à cultura, aderi aos costumes, ao modo de se comportar, ao modo de falar, ao modo seridoense de levar a vida. Sim, me sinto um caicoense e respeito as tradições locais - ao menos as dos antigos. O que me faz ficar chateado é o que agora exponho: há tantos anos moro aqui, sempre seguindo regras, sempre tratando bem as pessoas e nunca extrapolando meus direitos e, numa época como essa que agora cito como exemplo, as coisas fogem do controle.

Moro próximo à UFRN, ponto de partida do Caicó Fest. Ora, sexta-feira, o primeiro dia do evento, 10 horas da manhã, já existem carros fazendo duelos de som, cada um que queira mostrar quem tem o som mais poderoso - contrastando certamente em potencial com sua própria pessoa. Pra que isso? Em meio a toda aquela barulheira, duvido eu que alguém possa conversar de forma inteligível, apenas se bebe e se balança a cabeça - tudo bem, talvez seja um modo particular de comunicação. Mas está tudo em paz, releva-se, afinal, são apenas três dias de folia, não posso eu querer estragar a brincadeira dos meninos. O dia segue em meio à barulheira, sem crise.

Chega a noite. Eu, com minha mente já em Plutão, resolvo sair pra beber umas cervejas pra descontrair. A noite é muito boa, bebo com meus amigos, esqueço do dia infernal, as horas passam e chega o momento de voltar para casa. Incidentalmente, esse momento coincide com o fim do festejo...

Três vezes. Três foi o número de vezes que eu ia sendo atropelado ao voltar para casa. Três. Creio que do ponto do qual saí até a minha residência não seja dois quilômetros. Voltei a pé, como tenho o costume de fazer há quase dez anos. Nesse intervalo de tempo, cerca de 15 minutos, quase fui atropelado três vezes. Tenho direito de reclamar? Tenho sim! Prezo, pois, pelos bons costumes da minha cidade, respeito a todos que aqui residem, nunca interferi no direito do próximo e por quê, por que vos pergunto, teriam essas pessoas - possivelmente embriagadas - o direito de estragar minha noite, ou ainda mais, minha vida?

Não, não estou criticando diretamente o Caicó Fest, nem estou me direcionando de forma restrita a qualquer grupo de pessoas, sendo esses turistas ou não, estou tão somente falando sobre direito. A que ponto pode chegar o interesse coletivo em detrimento do interesse individual? E não somente isso, pois falo por mim, mas muitas outras pessoas correm o mesmo risco que corri, falo sobre a segurança dos vários cidadãos que ficam à mercê da sorte daqueles que exageram.

Uma coisa é certa: jamais chego à casa de ninguém, sendo convidado ou não, para fazer bagunça. O respeito e a educação são valores totalmente subjugados na sociedade atual. Lamentável. Enquanto milhares se divertem, a sorte que cuide dos menos favorecidos. É normal viver nessa situação de risco?

"Ah, mas é carnaval, é festa, não seja chato! Tá toda a galera curtindo...". Jovem, em verdade te digo: a diversão coletiva jamais poderá se sobrepor, nem ao menos por em risco, à vida humana, ou animal, que seja. A história está aí para nos ensinar, vide - de forma simples, crua e direta - o coliseu.

Caso você tenha achado esse texto enfadonho, moroso, cadente de lógica, uma chatisse sem fim, resumirei: eu, Gustavo, andarilho das noites caicoenses, que não troco uma boa noite de cervejas e conversas fiadas com meus amigos por nada, apenas e tão somente peço: por favor, folião, não me atropele.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Caicó Arcaico

por Fernando:

Moro em Caicó há 21 anos. Foi aqui onde nasci, passei minha infância, adolescência e de quebra, também foi aqui que passei a encarar o Sol como uma ameça.

Inicialmente a idéia de passar o resto de minha vida em Caicó não me assustava; lá estava eu, sempre otimizando minha visão em relação à esta cidade, achando que todos os pontos negativos ocorriam em prol de algo maior, algo que viria, se fixaria e mudaria a maneira como as coisas são levadas aqui. Com o passar dos anos essa idéia foi se esvaindo de minha mente, murchando, até se tornar mais uma lembrança relapsa, que se converteu em frustração.

Pensem comigo: quais foram as mudanças mais visíveis que houveram em Caicó nos últimos 15 anos? Bem, meus jovens aprendizes, só consigo listar duas: a proliferação dos mototaxistas e a criação de um conjunto "musical" chamado Sakulejo*.

"Ok. Mas e o Centro Cultural e a Ilha de Santana?" Sim, são mudanças, porém, de mal uso por parte do poder público. Para que serve um teatro que em vez de promover a cultura de nosso povo através de peças, recitais, etc., só se limita a apresentar uma variedade de convenções políticas, com o propósito de discutir "quem fez mais o que" e "quem fez menos o que"?. Para que serve um espaço como a Ilha de Santana que só abre as portas para os turistas? - nada contra os mesmos -, e muitos desses nem respeitam a cidade, chegando inclusive a cagar em frente à casa das pessoas (cagaram em frente à minha).

Onde está a hospitalidade caicoense, senão no triste fato de nos deixarmos ser, lamentavelmente, subjulgados pela idéia de que tudo o que vem de fora é melhor e mais interessante; portanto, se um "playboy" de Campina Grande vem pro Carnaval e caga em frente à sua residência , você vai ter que limpar, porque você é caicoense e nossa maior qualidade é a hospitalidade. BULLSHIT!

A forma como as coisas estão sendo levadas em Caicó Cidade de Fé e Alegria já é de desagrado de boa parcela de seus habitantes, vide a famigerada** Festa de Santana, que deixou "a long time ago" de ser uma manifestação da genuína fé do povo seridoense e se tornou um meio mercantilista, um lobby político, um coreto para para inauguração de obras inacabadas, uma festa para transar mais, para ouvir a banda Os Cafetões do Forró*** cantar que Deus desenhou num sei quem, quando tava se beijando com fulana - uma puta ironia se tratando de uma festa religiosa.

Não tenho nada contra qualquer tipo de manifestação, seja ela religiosa, política, sexual, animal, vegetal ou mineral. Só me incomodo com o fato de que tudo é cinicamente maquiado neste município. Por que não admitir as contradições e aceitar que esses eventos não são mais feitos para os caicoenses? Por que a nossa Secretaria de Saúde não distribui camisinhas na Festa de Santana como de praxe faz no Carnaval? Macacos me mordam se em ambas as pessoas não transam mais que coelhos-coala jupterianos (?!).

Eu sei que essas festas movimentam a economia, as pessoas se divertem, riem umas das outras; eu acho legal a muvuca, mas não gosto quando começa a virar circo na boca de político ou de gente que se aproveita da privilegiada posição de turista para fazer cagada, literalmente.

Enfim, espero que um dia mude, eu gosto da minha cidade, tem caras engraçados aqui, a melhor carne de sol da América, os barracos do açougue, as garotas mais bonitas, e tem este que vos escreve, o cara mais bonito da região. Brincadeira, hehehehehe.

-------------------------------------------------------------------------------------------

* Essa banda ainda faz muito sucesso por aqui, recentemente seu vocalista foi eleito Rei Do Carnaval caicoense.

** Ao contrário do que parece, a palavra "famigerada" não tem uma conotação perjorativa.

*** "Os Cafetões do Forró" é uma banda fictícia, criada com o fim de ilustrar uma determinada passagem deste artigo. Se caso algum produtor musical se interessar por este nome, peço que reserve os devidos créditos à minha pessoa.
layout por WART :]